Acho que já consegui acertar o passo e arranjar forma de ler mais durante a semana. Em casos extremos, como aconteceu nos últimos dias, acabo por ficar agarrada a um livro, durmo menos horas e odeio-me no dia seguinte. De resto, no entanto, mecanizei-me para ler em pequenos períodos de tempo durante o dia. Quando estou à espera dos transportes públicos - porque ler em autocarros é destruir o meu estômago e tudo o que ele representa - e até à hora de almoço, na companhia das minhas colegas de trabalho, o que originou a piada de que formámos um clube de leitura semanal. 

Este novo hábito de leitura fez com que, no espaço de dez dias, sensivelmente, acabasse por ler quatro livros. Ah, as saudades. Não há nada melhor do que ver o meu desafio da Goodreads a crescer e a noção de que, pelo menos em 2019, vou ultrapassar o número estipulado no início do ano. 

Como não tenho muito tempo para fazer reviews individuais, decidi resumir as minhas últimas leituras para vocês. Prometo, pelo menos, uma história arrepiante e um romance adorável - assim para equilibrar a coisa, estão a ver?



O poder da literatura é este: incomodar. Há certos livros que o fazem de forma aterrorizante, e "A Nossa Casa Está a Arder", de Greta Thunberg, é certamente um deles. Incomoda-nos saber que estamos a ignorar um problema grave que, embora não tenha muitas repercussões para nós, certamente não será o caso das gerações futuras - e já nem digo dos nossos bisnetos, pois esta é uma crise que pode estar tão perto ao ponto de atingir diretamente os nossos filhos. 

Este livro, lançado em junho de 2019 pela Editorial Presença*, é tanto uma compilação dos discursos de Greta Thunberg, a menina que ficou conhecida pela greve escolar pelas alterações climáticas, como uma biografia de Malena Ernman e Svante Thunberg, os pais que viram a sua vida dar uma volta de 360º graus quando a sua filha mais velha foi diagnosticada com síndrome de Asperger, transtorno obsessivo-compulsivo e mutismo seletivo. 

Na junção destes dois polos, aparentemente incompatíveis (como é que se junta discursos de ativismo com a história de vida de uma cantora lírica e um ator suecos?!), o leitor recebe a maior wake-up call de sempre. Sem palavras dóceis. Sem falinhas mansas. As palavras inevitáveis acerca de um estilo de vida que está a destruir o planeta e onde todos têm a sua quota parte de culpa. Uns mais do que outros. Mas, ainda assim, todos. Não só percebemos que continuamos a fazer muitas coisas mal, como compreendemos a influência que as alterações climáticas têm nas crianças e adolescentes. Como o facto de os transtornos do foro psíquico, a depressão, os ataques de ansiedade e pânico - todas estas perturbações serem o resultado de uma sociedade que peca pelo excesso.






Em 2017, no final do meu primeiro ano de mestrado em Jornalismo, escrevi este texto sobre a frustração em viver num país que mal consegue cativar nas universidades e faculdades nacionais. Depois disso, passei por uma avalanche de situações que parecem oriundas de uma década, e não de dois anos. Admiti que tinha depressão, ao mesmo tempo que escrevia uma tese para a qual não tinha interesse e que parecia uma espécie de tortura diária na minha vida. Mal sabia eu que, naquele momento, ainda estava muito longe do grande objetivo sinuoso e esgotante de arranjar trabalho. 

Quatro meses após começar a trabalhar, começo a ganhar uma bagagem, quase irrelevante, mas já bem viva no meu quotidiano. É daquelas que cabem nas gavetas superiores dos autocarros, uma que começa, lentamente, a ganhar recheio até lhe ser impossível outro lugar se não na bagageira inferior. Tenho uma opinião que, embora não seja totalmente discordante da que tinha em 2017, é talvez mais madura. E posso dizer que, embora continue chateada com o meu país, acabo por ter algo mais a acrescentar - há uma grande injustiça com a nossa, com a minha geração.